Autor: Dário Yanagita

Revisão Técnica: Alberto Nakamura

 

No pensamento Lean, valor é aquilo pelo qual o cliente está disposto a pagar, pois transforma algo que se encontra em um estado atual em um estado desejado, resolvendo um problema relevante ou atendendo a uma necessidade real. 

No entanto, compreender o conceito não basta, é preciso reconhecer, na prática, quando uma atividade agrega valor e como um processo, como um todo, gera valor. 

E essa distinção é fundamental no Lean. 

Neste artigo, vamos aprofundar esse raciocínio. 

 O Fluxo de Valor: o café que chega à sua cozinha 

Retomemos o exemplo do café. Para que um simples pacote chegue à sua casa, ocorre um fluxo de valor composto por diversas transformações sucessivas: 

  • plantio; 
  • manutenção; 
  • colheita; 
  • secagem; 
  • beneficiamento; 
  • torra; 
  • moagem; 
  • empacotamento; 
  • transporte; 
  • exposição no supermercado. 

Cada etapa envolve pessoas, decisões, tecnologia, materiais e conhecimento. Mesmo sem considerar fases anteriores, como aquisição da terra, preparo do solo ou gestão ambiental, já é possível perceber a amplitude de recursos envolvidos. 

Mas surge a pergunta central:  Em que momento, exatamente, o valor é criado?  

Por que recursos não são suficientes? 

Ao aplicar a clássica lógica dos 4M (Método, Máquina, Material e Mão de Obra), identificamos facilmente a necessidade de conhecimento técnico, dados climáticos, análises de solo, equipamentos adequados e profissionais capacitados. 

Entretanto, possuir esses recursos não significa, por si só, gerar valor. 

Esse é um dos equívocos mais comuns nas organizações: 

  • equipamentos disponíveis não agregam valor; 
  • métodos documentados não agregam valor; 
  • informações armazenadas não agregam valor; 
  • pessoas apenas alocadas não agregam valor. 
  • Recursos são potenciais, não valor. 

No Lean, o valor só surge quando ocorre uma transformação real, e essa transformação precisa atender simultaneamente aos três critérios de valor agregado: 

  • alterar o produto, o serviço ou a informação;
  • ser realizada corretamente na primeira vez;
  • atender a algo que o cliente percebe como necessário e pelo qual estaria disposto a pagar.

Em outras palavras:
Atividades agregam valor, mas apenas um fluxo coordenado gera valor.

É por isso que uma fazenda com excelentes mudas, laboratório moderno e profissionais experientes ainda pode produzir café de baixa qualidade — se o processo não fluir, se as decisões forem tardias ou se os recursos permanecerem inertes.

Valor é resultado de ação coordenada

No exemplo da escolha da muda ideal, ter conhecimento, ferramentas e fornecedores disponíveis não é suficiente.

O valor só começa a surgir quando alguém:

  • investiga;
  • compara dados;
  • avalia o solo;
  • decide;
  • planta. 

Cada uma dessas ações agrega valor, pois transforma a realidade daquele produto ou serviço.

No entanto, gerar valor, no sentido Lean, depende de todas essas ações acontecerem no momento certo, sem desperdícios e dentro de um fluxo contínuo. 

Ou seja:
Ação coordenada + decisão correta + momento oportuno = geração de valor. 

Esse raciocínio se aplica igualmente aos processos administrativos. Trocar informações, gerar relatórios ou analisar dados não agrega valor por si só. Essas atividades só passam a agregar valor quando sustentam uma decisão que melhora efetivamente a entrega ao cliente. 

O Lean nos lembra que o desperdício (Muda) está sempre à espreita: retrabalho, espera, excesso de informação, transporte desnecessário, burocracia e processamento excessivo. Esses elementos distorcem a percepção do cliente e transformam aquilo que deveria ser valor em frustração. 

Por que essa distinção importa? 

Porque organizações maduras em Lean não se concentram em “fazer tarefas”. 

Elas se concentram em fazer tarefas que agregam valor dentro de um sistema que gera valor. 

Em outras palavras: 

  • agregação de valor é micro (atividade); 
  • geração de valor é macro (processo e fluxo). 

Ou ainda: 

  • agregar valor é o ato; 
  • gerar valor é o efeito. 

Empresas Lean focam em: 

  • fazer a tarefa certa; 
  • do jeito certo; 
  • no momento certo; 
  • por uma razão clara para o cliente. 

Valor é criado pela transformação. 

Desperdício é criado pela ausência dela. 

Compreender essa linha que separa o micro do macro é um passo fundamental para evoluir qualquer processo produtivo, administrativo ou de serviços. 

 

Dário Yanagita

Dário possui 30 anos de experiência em indústria automobilística no Brasil, dos quais 15 anos trabalhando na Toyota do Brasil. Possui especialidade variada, de usinagem, montagem, logística, qualidade e meio ambiente. Implementou linhas de produção Lean, programas Kaizen, geriu planos de desenvolvimento de equipes e transformação Lean em empresas.

 

Links complementares
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