Por: Dário Yanagita
Revisão Técnica: Sergio Niyama

 

Você provavelmente já escutou essa pergunta e também a resposta padrão. Ela aparece em praticamente toda a literatura sobre Lean.

A motivação para eu escrever este artigo é que tenho notado muita dificuldade por parte de alguns alunos, em identificar e compreender os 7 desperdícios (Muda) do TPS. Essa dificuldade, muitas vezes, nasce na falta de clareza sobre o que é, de fato, a agregação de valor (VA).

Afinal, se não sabemos o que é o valor, como podemos identificar seu oposto, o desperdício?

Percebi que a causa raiz dessa dificuldade está justamente no entendimento do que é valor agregado.

O conceito de valor agregado, é o ponto de partida central e o foco absoluto de toda a filosofia Lean dentro do TPS. 

O valor é definido estritamente pela perspectiva do cliente: é aquilo que ele está disposto a pagar e que transforma o produto (ou serviço) em direção ao seu estado final desejado.

O TPS classifica as atividades do fluxo de valor em 3 categorias:

  1. Valor Agregado (VA): Atividades que agregam valor e pelas quais o cliente pagaria, como por exemplo:  montagem de um componente ou quaisquer atividades que transformam o produto.
  2. Não Valor Agregado Necessário (NVAN):  Atividade que o cliente não paga e que não agregam valor, mas que são obrigatórias por regulamentação ou por necessidade do processo. Exemplos:  inspeções de segurança, qualidade obrigatórias por lei, preenchimento de documentos fiscais. (O TPS busca minimizar essas atividades.) 
  3. Desperdício (Muda): Atividade que não agregam valor e que o cliente não está disposto a pagar. Devem ser eliminadas. São os 7 desperdícios: Superprodução, Espera, Transporte, Inventário, Movimento (pessoas), Superprocessamento e Defeito.

Diante disso, sob a perspectiva do cliente, surgem algumas perguntas importantes:

  • Qual é a origem do valor?
  • Como surge a percepção de valor?
  • Por que o cliente conclui que vale a pena pagar por algo?

Analisemos uma situação simples do nosso cotidiano.

Por exemplo: vamos tomar um cafezinho adoçado.
De onde vem o pacote de café e açúcar que compramos no supermercado?
Por que gastamos nosso dinheiro na compra destes produtos?
Por que enxergamos o valor nesses produtos?

Para responder, proponho uma provocação: se não pudéssemos comprar no supermercado e tivéssemos que plantar cana-de-açúcar e colher o café para consumo próprio… o que faríamos?

Complementando com outras perguntas:
Temos espaço suficiente para plantar cana-de-açúcar e produzir nosso próprio açúcar?
A varanda da nossa casa seria suficiente para colher café para o consumo de um ano?

Com certeza, a conclusão é: não plantaríamos!

A primeira conclusão a que chego é que, ao comprarmos no supermercado, enxergamos valor em algo, seja em um produto ou em um serviço, e estamos pagando pela solução, pela conveniência e a eficiência. O cliente está disposto a pagar porque o produto ou serviço facilita a sua vida.

Se a atividade não for uma transformação pela qual o cliente está disposto a pagar (VA), ela é na melhor das hipóteses, um fardo a ser minimizado ou na maioria das vezes um desperdício a ser eliminado.

A verdadeira compreensão do Muda começa na distinção entre o que o cliente valoriza e o que ele simplesmente tolera.

Podemos até ter habilidades para plantar o próprio pé de café ou a cana-de-açúcar, mas certamente percebemos que é mais eficiente pagar por um serviço ou produto especializada do que tentar fazer tudo sozinho, especialmente quando faltam recursos como conhecimento, habilidade, espaço físico e equipamentos.

Quando compramos o café, estamos dispostos a pagar todas as etapas que efetivamente transforma o grão cru na bebida final: plantio, colheita, secagem, torrefação e moagem, culminando no produto empacotado e pronto para o uso. Essas são atividades de valor agregado na cadeia do café. 

O arrendamento da terra, o diesel para tratores, a energia elétrica para irrigação e os insumos são custos inerentes a produção. O objetivo do administrador é garantir que os recursos sejam usados com máxima eficiência, identificando e promovendo o fluxo contínuo de valor, Just In Time Jidoka. 

Ou seja, o processo de levar o café da origem ao consumidor final constitui uma complexa cadeia de valor, onde cada fase, do cultivo à industrialização e à distribuição é crucial para agregar valor percebido ao produto.

A conveniência experimentada pelo cliente ao adquirir o item na prateleira é, na verdade, o resultado de todos os processos.

O preço de venda materializa o valor percebido e tem a função de remunerar eficientemente toda a cadeia. Por esta razão torna-se essencial a gestão e eliminação de desperdícios (Muda).

Em essência, compreender o que realmente agrega valor é o primeiro passo para enxergar os desperdícios. Quando entendemos o que o cliente valoriza, passamos a distinguir com mais clareza aquilo que transforma o produto daquilo que apenas consome recursos.

 

Dário Yanagita – d.yanagita@br.honsha.org

Dário possui 30 anos de experiência em indústria automobilística no Brasil, dos quais 15 anos trabalhando na Toyota do Brasil. Possui especialidade variada, de usinagem, montagem, logística, qualidade e meio ambiente. Implementou linhas de produção Lean, programas Kaizen, gerenciou planos de desenvolvimento de equipes e transformação Lean em empresas.

 

Links complementares
Acesse o site do Honsha:
https://www.honsha.org/?lang=pt-br  

Veja outros artigos sobre Lean e Toyota no Honsha:
https://www.honsha.org/artigos/  

Cadastre seu E-mail e receba nossa Newsletter