
Por: Edson Nagamachi
A dica de hoje é sobre uma série de TV que ilustra de maneira bastante precisa o mecanismo de implementação de melhorias a partir da constatação de um grande problema na operação, as barreiras Culturais para implementar e sustentar o Processo depois da mudança, e como a liderança e os envolvidos colocam em prática alguns dos preceitos do Lean/TPS.
A série é ‘GATE 24: THE BORDER’, uma produção Japonesa da TV Asahi, disponível na Netflix.
O enredo aborda uma crise real enfrentada atualmente pelos grandes aeroportos internacionais japoneses em razão do aumento expressivo do número de turistas estrangeiros, que provoca um colapso nos processos de controle de fronteira. A história se passa em um aeroporto fictício, o Kanto International Airport, um hub que recebe um grande volume de voos charter.
A análise preliminar das autoridades mostrou que a falta de um fluxo integrado e ágil entre os departamentos de Imigração, Alfândega, Autoridades Portuárias e Policiais causava um acúmulo de passageiros, culminando em atrasos generalizados e caos nos aeroportos.
Embora seja um drama policial, a série funciona quase como um estudo de caso sobre os desafios da aplicação prática e do pensamento Lean fora do chão de fábrica tradicional. O enredo gira em torno de uma força-tarefa interministerial (cross-agency task force) recém-criada, que reúne oficiais de alfândega (Ministério das Finanças), controle de imigração (Ministério da Justiça) e segurança policial em um ambiente de alto fluxo e alta criticidade. O objetivo é eliminar as esperas em filas múltiplas e otimizar o fluxo de passageiros em um edifício remoto chamado GATE 24 (Portão 24).
- Genchi Genbutsu (現地現物) e o Poder da Observação Minuciosa
A protagonista, a fiscal Machi Mori, não toma decisões baseada apenas em relatórios prévios de inteligência ou telas de computador. A sua eficácia vem do hábito de ir ao ponto exato do processo. Ela observa diretamente os objetos, as bagagens, as reações corporais dos passageiros e os microdesvios na rotina da esteira.
O enredo ressalta que dados e relatórios contam apenas o que foi registrado, enquanto o GENBA revela a realidade. Para o praticante de Lean, a postura de Mori personifica o princípio de Ohno do círculo de giz: permanecer no posto de trabalho e observar até identificar a causa-raiz dos problemas, em vez de presumir soluções à distância.
- Jidoka (自働化) e a Coragem de Interromper o Fluxo (Andon)
Em um aeroporto de grande porte, o fluxo contínuo de passageiros e bagagens é a prioridade operacional. Qualquer parada gera filas, atrasos em conexões e custos altíssimos.
Diversas vezes, Mori e seus colegas detectam uma anomalia sutil e tomam a decisão impopular de puxar o Andon: interromper a liberação de um grupo de passageiros ou iniciar uma investigação pontual, mesmo sob pressão hierárquica para manter a esteira em movimento.
O ensinamento é claro: permitir que um defeito passe adiante, ou, no contexto da série, deixar passar contrabando ou uma ameaça para cumprir uma meta de produtividade, pode custar muito mais caro nas etapas seguintes do processo. Parar para conter o problema em sua origem é a essência do Jidoka.
- JKK (Ji Koutei Kanketsu / 自工程完結) e a Quebra de Silos Departamentais
No início da série, o GATE 24 sofre com o clássico vício burocrático dos silos funcionais: a Imigração alega que seu trabalho se limita ao passaporte e ao visto; a Alfândega foca apenas no conteúdo das bagagens; e a Polícia aguarda ordens para agir em casos criminais.
Esse jogo de empurra gera brechas exatamente nos pontos de passagem entre os processos (handoffs).
Conforme o enredo avança, a equipe só obtém êxito quando adota a postura de JKK (qualidade assegurada no próprio processo): cada etapa assume total responsabilidade de não receber informações falhas, não produzir erros de julgamento e nunca repassar um risco ou defeito para a agência seguinte. O processo só se torna fluido quando o foco deixa de ser defender a minha jurisdição e passa a ser o fluxo de valor integral.
- Gestão Visual (Mieruka / 見える化) e Trabalho Padronizado
O roteiro coloca em confronto direto o funcionário de carreira que opera estritamente com o manual burocrático e a necessidade de procedimentos que realmente reflitam as condições dinâmicas do campo.
O Trabalho Padronizado (Standardized Work) aparece não como um regulamento estático e engessado de escritório, mas como a base necessária para que uma anomalia seja detectada. Sem um padrão claro de como deve se comportar um fluxo legítimo de entrada, torna-se impossível para os oficiais identificarem imediatamente o que está fora do padrão (Mieruka).
- Hitozukuri (人づくり) e a Formação de Pessoas para Resolver Problemas
O grupo inicial é formado por indivíduos considerados desajustados ou descartados por outros departamentos. No entanto, a liderança e a dinâmica da força-tarefa não tentam transformar todos em robôs idênticos. Em vez disso, desenvolvem o pensamento crítico e a capacidade investigativa de cada membro.
O verdadeiro desenvolvimento da equipe se dá pela prática contínua de PDCA diante de falhas de segurança e incidentes reais, demonstrando que nenhuma tecnologia de triagem ou raio-X substitui o olhar treinado de pessoas capacitadas para pensar e resolver problemas na fonte.
Fica a dica: assista à série e tente identificar os conceitos do Lean/TPS presentes na trama. E, quem sabe, você não acaba reconhecendo situações que já vivenciou na sua própria empresa? Afinal, os problemas podem mudar de cenário, mas muitos dos desafios para melhorar processos e desenvolver pessoas são bastante familiares!
Edson Nagamachi
Diretor Geral Sênior do Honsha para a América Latina. Engenheiro Metalúrgico pela Escola Politécnica da USP e especialista em Administração de Negócios pela FGV, construiu uma carreira de quase 30 anos na Toyota do Brasil, atuando em Engenharia de Produção, Controle de Produção e Logística, Gerenciamento de Projetos, implantação de novas plantas e Inovação & Indústria 4.0. Participou diretamente da implementação do Sistema Toyota de Produção na América Latina e da criação de estruturas estratégicas como Obeya e e-kanban.
Hoje, no Honsha, dedica-se a apoiar organizações no desenvolvimento de uma excelência operacional com propósito, sustentabilidade e impacto socioeconômico positivo.
Links complementares
Acesse o site do Honsha:
https://www.honsha.org/?lang=pt-br
Veja outros artigos sobre Lean e Toyota no Honsha:
https://www.honsha.org/artigos/



